As origens da actual Casa de São Lourenço remontam à década de 1940, durante a qual o regime de Salazar impulsionou a criação de sete pequenas unidades hoteleiras, com o objectivo de promover a cultura e os costumes das várias regiões de Portugal, combinando o projecto de arquitectos modernos com práticas tradicionais e materiais vernaculares.
A Pousada de São Lourenço, inaugurada em 1948 com projecto de Rogério de Azevedo, foi criada em plena Serra da Estrela, a 1200 metros de altitude e a oitocentos do cume. O pequeno edifício original, sabiamente implantado no lado de dentro de uma curva apertada da estrada, acede-se por uma cota superior e abre-se para o lado oposto, sobre a encosta e a vista deslumbrante do Vale Glaciar do Zêzere. Era uma construção simples, em pedra de granito e xisto, com longos telhados de beirado, que tanto se estendia por terraços e varandas no exterior, como se recolhia no interior, em redor das várias lareiras de sala. O projecto de decoração e mobiliário da Pousada foi entregue a Maria Keil, que desenha várias peças exclusivas, sempre inconfundivelmente assinalados com o seu pictograma da “loba estrelada”.
Originalmente dotado de apenas quatro quartos, o edifício viria a ser ampliado logo na década seguinte. Desta fase, destaca-se a varanda alpendrada em madeira, debruçada sobre o vale. A partir da década de 1970, ampliações sucessivas deram origem a uma evolução aleatória e desqualificada, mimetizando sem critério aspectos avulsos do projecto original. Gradualmente, o edifício tornou-se desajustado, labiríntico; foi perdendo o carácter, o conforto e a estreita relação primordial com a paisagem.
A intervenção actual parte de uma análise criteriosa deste legado, clarificando os diferentes tempos da construção. As ampliações são unificadas por um acabamento exterior de cor branca. Estendida sobre o território, esta massa neutra e homogénea distingue-se claramente e presta homenagem ao edifício original, que se mantém em alvenaria de pedra à vista. A nova construção assume-se em betão aparente, unificando o conjunto e resolvendo os requisitos do projecto contemporâneo.
Os elementos de betão funcionam como dispositivos de mediação entre o interior e o exterior, recuperando a relação entre os hóspedes e a paisagem, a partir de qualquer espaço do hotel. Uma geometria simples e racional permite a criação de grandes envidraçados e generosos espaços exteriores em todos os quartos e áreas sociais do hotel. Na frente voltada a Sul, criou-se um novo piso à cota mais baixa, para albergar o spa. Este espaço, cravado na montanha, define uma nova linha de encontro entre o edifício e a encosta, que permite retomar a topografia original do lote, reduzindo o impacto volumétrico do conjunto sobre a envolvente.